Domingo, 15 de Abril de 2012

Tomar 24 vezes ao dia
Por: Friedrich Wilhelm Nietzsche e outros ilustres
Precisamos amar a nós mesmos para sermos capazes de nos tolerar e não levar uma vida errante.
Viva para si mesmo, não para o mundo. As pessoas que não sabem amar a si mesmas buscam constantemente a aprovação alheia e sofrem quando são rejeitadas. Para quebrar essa dinâmica, devemos admitir que não podemos satisfazer a todos.
Fuja das comparações. Elas são uma importante causa de infelicidade. Muita gente tem qualidades e atributos que você não tem, mas você também possui virtudes que não estão presentes nos outros. Pare de olhar para os lados e trabalhe na construção de seu próprio destino.
Não busque a perfeição. Nem nos outros nem em si mesmo, já que a perfeição não existe. O que existe é uma grande margem para melhorar.
Perdoe seus erros. Especialmente os do passado, pois já não podem ser contornados nem têm qualquer utilidade. Aprenda com eles, para não repeti-los.
Pare de analisar. Em vez de ficar pensando no que deu errado, é muito melhor agir, porque isso permite aperfeiçoar suas qualidades. Movimentar-se é sinal de vida e de evolução.
Não há razão para buscar o sofrimento, mas, se ele surgir em sua vida, não tenha medo: encare-o de frente e com a cabeça erguida. Em um de seus aforismos mais célebres, Buda disse que "a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional". Do nascimento à morte, a vida está repleta de dor, mas o sentido que damos à essa dor só depende de nós. Se a encararmos de forma trágica, ela se transformará em sofrimento. Uma coisa é o que acontece no exterior e outra é o que se dá no interior de cada indivíduo. Aquele que tem medo de enfrentar a dor a receberá sempre como uma maldição. Ele nunca saberá o que fazer com a escuridão que toma conta de sua vida, que antes parecia tão feliz. O filósofo lida com a dor e tenta extrair dela um benefício em forma de conhecimento. Mesmo os momentos mais duros da vida, como quando sofremos uma terrível perda, são portas abertas em direção a algo que precisávamos conhecer. Se estivermos conscientes de que todo fim é ao mesmo tempo um começo, a dor e o possível sofrimento serão para nós uma escola que nos permitirá entender mais profundamente o que significa ser humano.
O futuro influi no presente da mesma maneira que o passado. O presente é um estado tão difícil de ser alcançado que a afirmação de Nietzsche não deveria nos chocar se analisássemos bem o que ele está dizendo. Ninguém duvida de que o passado tem influência no que somos, pois, juntamente com nossa herança genética, constituímos o produto de nosso caminhar pelo mundo. No entanto, o futuro também nos molda, pois, tendo o passado nas costas, construímos o dia a dia de acordo com os objetivos que estabelecemos para nós mesmos. O ideal seria fazer com que o futuro não esteja muito distante de nossos atos – pois isso nos levaria ao terreno da eterna fantasia – e cuidar para que o passado não seja uma carga demasiado pesada. Viver no passado, às vezes, pode se transformar em uma doença, que apresenta dois sintomas mais evidentes: A melancolia recorrente. A evocação de bons momentos do passado pode ser uma fonte de prazer, mas, quando se torna um hábito, acabamos nos privando do presente, que deveria ser a fonte de nossas lembranças futuras. O rancor: Manter abertas as feridas do passado impede que elas cicatrizem e não nos permite desfrutar o que acontece aqui e agora. Além disso, o tempo tende a deformar o acontecido e, às vezes, um episódio insignificante pode ganhar falsa importância.
Não deveríamos tentar deter a pedra que já começou a rolar morro abaixo; o melhor é dar-lhe impulso. Eis um pensamento taoísta: em vez de se opor a uma força contrária – o que acabaria dobrando a potência do impacto – as leis do Universo aconselham a se unir à ela e usá-la para os próprios interesses. Muitas artes marciais utilizam o mesmo princípio: direcionar a força existente é muito mais efetivo que se opor à ela. Por isso, o lutador de judô acolhe o golpe do oponente e canaliza a energia dele em benefício próprio. Aplicando essa sabedoria ao nosso cotidiano, uma medida muito útil é evitar – a menos que seja impossível – tudo o que implique problemas com o que nos cerca, como por exemplo: Discutir quando os nervos estão à flor da pele. Tentar modificar a opinião de uma pessoa que esteja absolutamente resoluta. Enviar um e-mail cinco minutos após ter se desentendido com alguém (é preciso deixar que se passem pelo menos 24 horas.) Querer ganhar a amizade de quem já demonstrou que não gosta de você, não importa se essa amizade seja de alguém próximo como um conhecido ou alguém como uma ex-namorada, por exemplo. O silêncio é a maior confissão de alguém que não gosta e não suporta a sua existência, então não dê sua energia para quem não vai aproveitá-la.
A maneira mais eficaz de corromper o jovem é ensiná-lo a admirar aqueles que pensam como ele e não os que pensam de forma diferente. A existência de um grande número de seitas, times de futebol e partidos políticos revela que o ser humano se sente confortável dentro de uma comunidade em que a linha de pensamento é estabelecida de antemão. Pensar é um trabalho árduo. Não é à toa que não é ensinado nos colégios e a filosofia tem peso quase insignificante no currículo escolar. A consequência lógica de não pensar é seguir sempre os outros, abrindo mão da capacidade de tomar decisões e traçar o próprio destino. Além disso, reduzir nossa mentalidade a uma única perspectiva faz com que entremos constantemente em conflito com os que seguem outros caminhos. Um exercício para manter a mente aberta seria comprar, de vez em quando, um jornal com tendência política diferente da nossa, assistir à programação de uma emissora de TV que nunca sintonizamos ou, ainda, ler um autor de cujas ideias discordamos. No final, nos daremos conta de que existem outros mundos dentro do nosso. Aquela pessoa, quer seja um amigo, um amado, um conhecido que incomoda você por ter opiniões fortes sobre as coisas e faz parecer que as suas opiniões não tem peso para eles, é justamente a quem você deve se aproximar e se manter firme por perto de seus ouvidos e sua boca. Se ele é mais velho e não é um tolo você está sob-boa companhia e acredite, tudo o que você diz é ouvido. A diferença é que o processo mental de ouvir, refletir, digerir e aparar as arestas de sua opinião acontece na velocidade da luz, enquanto você ainda está tentando acreditar no que opina.
No amor sempre existe algo de loucura e na loucura sempre existe algo de razão. Já que nos referimos ao amor louco, Julius Henry Marx dizia que o problema do amor é que muitos o confundem com a gastrite e, quando se curam da indisposição, percebem que estão casados. O amor é uma insanidade temporária que só o casamento cura. As noivas modernas preferem ficar com o buquê e jogar fora o marido. O homem não controla o próprio destino. É a mulher de sua vida que faz isso por ele.
Quem luta contra monstros deve ter cuidado para não se transformar em um deles. Os cínicos costumam se esconder por trás da maldade do mundo para dar asas à própria perversão. No entanto, os atos alheios nunca justificam os nossos. Nesta reflexão, Nietzsche faz referência às dificuldades da vida como uma escola que pode nos endurecer ou até nos transformar em pessoas cruéis, ainda que, no final, essa seja uma opção pessoal. Contra os determinismos negativos, Viktor Frankl comentou no livro "Em busca de sentido", que até nas circunstâncias mais adversas o ser humano tem o direito de decidir qual será sua postura diante do mundo. Sobre sua passagem pelo inferno de Auschwitz, Viktor relatou que alguns prisioneiros se embruteciam e colaboravam em atos de tortura, agindo contra os próprios companheiros, ao passo que outros consolavam os doentes acamados e dividiam com eles seu último pedaço de pão. Referindo-se ao conceito budista de dor e de sofrimento, ele afirmou: “Mesmo que não esteja em suas mãos mudar uma situação dolorosa, é sempre possível escolher a forma de lidar com o sofrimento.”
A mentira mais comum é a que alguém usa para enganar a si mesmo. Nietzsche dizia que "enganar os outros é um defeito relativamente insignificante"; o que nos transforma em monstros é o autoengano. Uma forma de mentirmos para nós mesmos é imaginar que estamos sempre certos e que o resto do mundo está errado. Existe uma piada que ilustra muito bem esse posicionamento: um motorista segue em uma estrada de mão única e escuta pelo rádio que um carro está circulando na mesma via, mas na contramão, colocando todo o tráfego em perigo. Após ouvir a advertência, o motorista diz: “Um carro, não. Todos!” Para o ser humano, é muito mais fácil concluir que os outros estão errados do que aceitar o próprio erro. É aí que nasce a depressão, pois, quando vemos todos os outros veículos trafegando no sentido contrário, o mundo se transforma em um lugar hostil, que parece ter sido criado para frustrar nossa felicidade. Às vezes, basta assumir humildemente que você estava errado. Como diz um aforismo indiano: “É mais fácil calçar um chinelo do que estender tapetes por toda parte.”
Eis a tarefa mais difícil: fechar a mão aberta do amor e ser modesto como doador. O filósofo Jiddu Krishnamurti discorre da seguinte maneira sobre o que significa amar: Liberdade e amor andam juntos. Amor não é reação. Se eu o amo porque você me ama, trata-se de mero comércio, algo que pode ser comprado no mercado. Amar é não pedir nada em troca, é nem mesmo sentir que se está oferecendo algo. Somente um amor assim pode conhecer a liberdade. Quando vemos uma pedra pontiaguda em um caminho frequentado por pedestres descalços, nós a retiramos não porque nos pedem, mas porque nos preocupamos com os outros, não importa quem sejam. Plantar uma árvore e cuidar dela, olhar o rio e desfrutar a plenitude da terra... para tudo isso é preciso liberdade – e, para ser livre, é preciso amar. Dar de si e receber o retorno é trocar o amor pelo amor somente, e isso liberta. Essa liberdade é o que permite a duas pessoas amarem-se sem imposição. Também está por trás do amor universal: uma atitude generosa do indivíduo com o mundo; dar pelo simples prazer defazê-lo, sem esperar nada em troca, nem sequer reconhecimento. Se uma parte começa a pedir retorno é porque já percebeu que não está sendo amado e a liberta de um sentimento que já não existe mais.
Dois grandes espetáculos são muitas vezes suficientes para curar uma pessoa apaixonada. Como se apaixonar envolve projetar mentalmente a imagem da pessoa amada, em alguns casos a afirmação de Nietzsche pode fazer sentido. Ao substituir uma projeção por outra – por exemplo, a de um filme , podemos aliviar uma paixonite por algumas horas. No entanto, é conveniente analisar de onde surge a necessidade do amor romântico, que prefere a idealização e a fantasia ao conhecimento e ao amadurecimento do amor. Segundo Platão – que Nietzsche achava chato, amar é caminhar em busca da parte que nos falta, da velha “metade da laranja”. Essa visão é questionada atualmente por muitos terapeutas de casais, que dizem que todo ser humano é uma “laranja inteira” e não deve esperar por ninguém para se sentir completo e realizado. Mesmo que estar apaixonado seja um prazer, graças à energia que envolve os que entram nesse estado, quem busca o caminho do meio deve colocar o amor a longo prazo e a ternura à frente das flechadas do cupido.
Usar as mesmas palavras não é garantia de entendimento. É preciso ter experiências em comum com alguém. Há um trecho no romance "Amor em minúscula", de Francesc Miralles, que fala da impossibilidade de compartilhar verdadeiramente uma experiência. Imagine que vou fazer uma longa viagem, sem saber quando volto, e você vai até a estação de trem para se despedir de mim. Se depois nos comunicarmos por carta ou telefone e nos lembrarmos da despedida, não estaremos falando da mesma coisa, mesmo que imaginemos que sim. A minha lembrança e a sua serão diferentes, isso quando não forem exatamente opostas. Você se lembra de um homem que se afasta em um trem e que acena da janela. Mas eu me lembro de um homem imóvel em uma plataforma e de que ele ficava cada vez menor. É a única coisa que podemos compartilhar: a sensação do outro ficando menor. Trata-se de algo que encontra eco em nossas emoções. Quando nos distanciamos fisicamente de alguém, sua presença no inconsciente se reduz progressivamente. Talvez, nesse sentido, o que acontece no nível óptico seja mera preparação para o que acontecerá na mente. Mas voltemos ao início: a experiência nunca pode ser compartilhada. Ela é servida sempre em frascos individuais.
De que vale o ronronar de alguém que não sabe amar, como um gato? É discutível o pressuposto de que os gatos não sabem amar. Eles simplesmente amam à sua maneira. A questão é que nos esforçamos para ser amados por pessoas que não nutrem amor por nós. Contra esse vício improdutivo, John W. Gardner fez a seguinte reflexão, em “Personal Renewal” (Renovação pessoal): O que se aprende na maturidade não são coisas simples, como adquirir habilidades e informações. Aprende-se a não voltar a ter condutas autodestrutivas, a não desperdiçar energia por conta da ansiedade. Descobre-se como dominar as tensões e que o ressentimento e a autocomiseração são duas das drogas mais tóxicas. Aprende-se que o mundo adora o talento, mas recompensa o caráter. Entende-se que quase todas as pessoas não estão a nosso favor nem contra nós, mas absortas em si mesmas. Aprende-se, finalmente, que, por maior que seja nosso empenho em agradar aos demais, sempre haverá pessoas que não nos amam. Trata-se de uma dura lição no início, mas que no fim se mostra muito tranquilizadora.
Antes de se casar, pergunte a si mesmo: "Serei capaz de manter uma boa conversa com essa pessoa até a velhice?" Todo o resto é passageiro num matrimônio. "A arte de amar", de Erich Fromm, publicada em 1956, é uma das obras mais lidas sobre um tema que preocupa a imensa maioria dos seres humanos. Para analisar o que sugere o título, o psicólogo e humanista alemão reflete sobre o que significa o amor para a sociedade moderna: Para a maior parte das pessoas, o problema do amor está mais em ser amado do que em amar. Daí vem a grande questão de conseguirem ser amadas, ser dignas do amor. Para alcançar esse objetivo, seguem vários caminhos. Um deles, utilizado principalmente pelos homens, consiste em ser bem-sucedido rico e poderoso a ponto de conquistar uma boa posição social. O outro, mais empregado pelas mulheres, consiste em ser atraente mediante o cuidado com o corpo, as roupas etc. Fromm afirma que uma pessoa só pode amar outra se conhecer a si mesma e respeitar a própria individualidade. Só então estará preparada para entender e respeitar seu parceiro. Como diz Nietzsche, ser capaz de conversar por toda a vida garante que o casal poderá se aproximar mais e mais e se conhecer cada vez melhor.
Um dia escutei de uma pessoa a quem amava profundamente: "Eu não gosto de receber presentes, não me dê mais presentes" e também ouvi "Eu não tenho nada para te dar em troca". Então eu fui arremessado para uma frase de Nietzche que disse: "Quem não sabe dar nada não sabe sentir nada", e isso foi o fator determinante para que eu decidisse parar de me iludir e alimentar um amor por uma garota 20 anos mais nova e 20 vezes mais insensível.
Quando sentimos que oferecemos algo ao próximo, de repente tomamos consciência de nosso valor. Ninguém é mais pobre que uma pessoa que não dá nada, pois é na doação que demonstramos nossa riqueza. E não se trata apenas de bens materiais. A maior avareza que existe é a do coração. Os que andam pelo mundo sem transmitir seus sentimentos acabam aprisionados em uma couraça, impedidos de sentir qualquer coisa, como no conto "O cavaleiro preso na armadura", de Robert Fischer. Sobre isso, o dramaturgo Alejandro Jodorowsky disse o seguinte: “O que você dá, dá. O que não dá, perde.”
Vale a pena verificar em que nível está nosso intercâmbio com o mundo. Assim como acontece com a economia dos países, a prosperidade depende da circulação de riquezas. Quando elas param, perdem o valor e a economia entra em recessão. O mesmo acontece com a riqueza do coração. Tão importante quanto dar é saber receber. Somente as pessoas capazes de fazer o amor fluir em ambas as direções podem se considerar prósperas emocionalmente.
Adaptação e contribuição: Rodrigo Caldeira