Estava assistindo a uma entrevista com o roteirista e ator Pedro Cardoso, pessoa a quem eu nutria generosa antipatia, por sempre vê-lo como o Pudor em pessoa. Foi no programa do simpaticíssimo antipático Danilo Gentili, a quem tenho admiração e antipatia fusionada, talvez porque ele seja o meu reflexo e ao mesmo tempo o melhor do que eu poderia ser e não fui por não tentar. Fiquei estasiado com Pedro Cardoso, encantado com sua perspicácia e senso crítico, portador de uma percepção real da realidade que vivemos, um ator construtivista nato. Fiquei encantado com sua performance intelectual simplicista, que argui os poderosos, os magnatas e qualquer horda de fanáticos capitalistas ante a massa falida social desumanizada e excretada pela mídia televisiva. Ele, em sua peça anunciada "O autofalante" preconiza a infame TV, uma ferramenta que só fala, mas não tem orelhas para ouvir. Que invade as casas a convite dos moradores e como um maldito hóspede leva o que bem entender para o seio familiar, sem que nada possa ser feito ou evitado. Sempre haverá um membro da família que consumirá o dejeto trazido pela TV, sem permissão dos anfitriões, ou até mesmo para os próprios. Um ser que só vomita informações de qualquer natureza sem querer saber se quem está na sua frente seja inocente ou puro, que não tem sentimentos, não tem sangue correndo nas veias, não sorri e não chora, mas ocupa o centro da casa, o melhor lugar, inclusive nos corações das pessoas. Tudo que vem da TV é lixo reciclado, nada vem para sustentar, nem para alimentar, nada vem de bom grado nem mesmo para salvar, a vida, a pele, o saldo no banco. Somos vítimas de um ser eletrônico, frio, desprovido de sentimentos, especialista em hipnose e usurpador do amor. Tão logo se fala da bela assassinada por um maníaco não identificado e sem esperar qualquer dez segundos "vamos falar de vida saudável com as cápsulas rejuvenescedoras com óleo de castanha". E todos estamos ávidos atentos sem prestar atenção em nada, ocupando nossas visões com qualquer cena - preferencialmente violentas - preenchendo nossos miolos com informações vazias e sem sentido, para mexer com nosso subconsciente e nos fazer levantar e gastar mais dinheiro consumindo coisas nos mercados, nas lojas, nos shoppings para saciarmos o vazio que fica quando desligamos a TV ou saímos da frente dela. Não há sentindo algum ver TV, porque sempre há a manipulação da venda, da venda e da venda. O banco quer vender serviços, a indústria quer vender seus produtos, os médicos seus serviços, as igrejas suas orações, os músicos suas canções, aos cães e gatos, também rações. Sem razão alguma vendem um carro melhor, um celular melhor com maior automonia de internet. Sem motivo vendem o melhor apartamento, ou crédito para quem está enforcado por tanta dívida que a TV o fez gastar. A água pura é vendida na garrafa, o refrigerante é sinônimo de alegria e juventude. O fast food tem a cozinha melhor do que a comida da mamãe e o bolo da vovó só é mais gostoso na loja de bolos. Os astrólogos vendem previsão pelo celular, a olimpíada faz você comprar chinelos com estampas do grande evento. Morre o cantor, vende-se mais discos. O futebol vende camisas e ingressos para que você assista o circo de pulgas em que mal se vê quem é quem no gramado, mas o importante é xingar a mãe do juíz, pois foi assim que a TV ensinou e todo mundo riu, adorou. Os shows arrebanham multidões e os cantores têm sede do dinheiro que tudo isso trará para ele e quantas cabeças de gado ele conseguirá comprar naquele leilão na TV que assistiu. Entrevistas pagas, reportagens pagas, o drama é vendido na TV. A mais serena face da apresentadora é para cativar os boçais telespectadores que precisam chorar pelo problema solucionado do filho que não vê a mãe há quarenta anos, e de repente ele é cantor sertanejo, e de repente seu pai morreu com o nome da dupla escrita num papel amassado na mão. Tudo a TV vende e tudo todo mundo compra. Compra até a vida alheia montada por gente que quer aparecer a qualquer custo confinada numa casa colorida, moderna, espaçosa, com piscina e academia onde se escuta tudo, se vê tudo, como se ninguém nunca tivesse visto alguma mulher pelada ou o pênis de algum homem por aí. E paga-se caro para consumir, tudo é vendido pela TV que só fala, mas não ouve ninguém. Consumidores frustrados saem da TV e vão gritar na internet, falar suas opiniões, levantar discussões para quem? Pra ninguém, porque ninguém está interessado no que você pensa ou diz. Um like, dois likes e se contente com isso. Você vê que alguém deu um joinha na porcaria de opinião que você dá e que não faz a menor diferença para ninguém, a menos para você no seu ego frustrado de quem não tem nada melhor pra fazer senão deixar seus rastros nas redes sociais, se expondo ao ridículo levantando uma opinião que em menos tempo do que imagina ninguém estará falando mais sobre o que você estava dizendo, e isso considerando três, dez ou se tiver sorte trinta pessoas das mil setecentos e oitenta e dois amigos estocados no seu inútil perfil - seu manifesto está na barra de rolagem e sabe-se lá se satanás irá ler também, porque ninguém mais lerá, mas todos saberão que você foi imbecil o suficiente para falar sobre aquilo, como eu faço aqui no blog, apesar dos 305.000 visitantes e seguidores de todo o planeta terra, o que não é nada diante dos sete bilhões de pessoas em todo o mundo, ou seja, meu blog é visto por 0,005214%, que significa que nem saiu do zero por cento. O autofalante só é um objeto para se passar a voz de quem fala do outro lado, é a TV. E daí? Quem se importa quando não se tem mais assunto para conversar na família, porque sempre sairá uma discussão, um desentendimento. Tudo é a TV, por ela e para ela. Maridos traem suas esposas com a TV e elas fazem a mesma coisa com a mesma cúmplice. Ninguém é inocente, não há salvação. Cristo aparece na TV, depois Maomé, depois Buda, depois Edir Macedo, depois venda de gado, mais tarde o demônio e em seguida uma receita de frango a passarinho com molho de ervas gregas. Estamos intoxicados pela TV, deixamos de caminhar no parque ensolarado para assistir um passeio no parque com os artistas da novela. A esposa se emociona com a cena de beijo da atriz que encena a ex-noviça no ator que encena o ex-seminarista, ambos apaixonados sobre a pedra na beira do rio, mas não tem coragem de ficar com seu marido, que é outro dependente doente e manipulado, que está no quarto assistindo futebol no canal de esportes, que na verdade não é canal de esportes, senão somente de futebol. A TV não vende ideias, vende produtos. Não vende altruísmo, mas está aberta para receber doações para crianças que são esperanças. A TV não vende o perdão, mas vende o programa de governo que perdoa parte da sua dívida, desde que você pague o que deve em impostos. A TV é humana, nós é quem somos aparelhos ligados na tomada do marketing e da publicidade. Compramos caixas coloridas de cereal, mas cereal que presta não compramos nada, só massa e açúcar. Somos canibais, pois nem sabemos se o salame, o presunto e a mortadela são do porco exatamente. Somos roedores, já que não sabemos se o caldo de galinha tem só a parte comestível da ave ou se há outro tipo de podridão refogada e pasteurizada, salgada e colorida para ficar com cores mais alegres e aparentemente saudáveis.Tudo a TV vende, até o suco de frutas sem frutas, mas com uma grande combinação química de tinta, açúcares e fragrâncias que lembram as frutas. As opiniões que formamos não são nossas, são da TV. Não existe formador de opinião, principalmente se este não assistir a TV, porque  a opinião é dela antes de ser nossa. Nada é novo, nada é interessante e se for durará poucos minutos com intervalos de vendas entre os cortes de cenas. No whatsapp compartilhamos mais demências, mostramos as desgraças alheias e damos risadas, é o kkk da alegria, digitamos risos sem nenhum esboço sorriso na cara, tudo que mostramos estar sentindo é o contrário de nossas feições e ninguém se denuncia. Daí tem a TV bastarda que é o YouTube, que só fala mas não te escuta, repleta de frustrados tentando ganhar a fatia da atenção e faturar alguma coisa com isso, vendendo seus podres, se expondo ao ridículo. Poucos são os que querem um mundo melhor, querem frutificar opiniões bondozas, críticas construtivas, exemplos de gratidão, respeito aos idosos, amor-próprio e autoestima. Tudo inspira venda. A atriz pornô precisa da TV para vender seus gozos falsos. A prostituta precisa da TV para realizar fantasias de homens frustrados e incapazes de se apaixonar por mulheres de verdade. A TV precisa da TV para se vender mais. Entre um Amém e a benção se vende o DVD de louvores e orações milagrosas na TV. Não há salvação. Todos temos uma TV e formamos opiniões da TV nas redes sociais da internet porque somos todos frustrados. Nem a cama que dorminos está fora da venda da TV. Se quiser se livrar da escravatura televisiva e não consumir o que ela vende para você se torne morador de rua.

Publicado por Rodrih às 03:44 | Link do post
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Comentários
Faz sentido...
É incrível, mas vc "desenhou" a imagem dele. Ele é...
Cuidado com a autossabotagem. A mente humana é cra...
Olá! Sou separada e ultimamente tenho pensado muit...
Fiquei mega curiosa sobre esses métodos não conven...
OI DIGOOBRGADA TBEMNAO VOU FALAR MTO MAS OBRIGADA ...
Oiiiii Rodrigo! Qto tempo moço! Lembras de mim? So...
eu tambem faco em casa nunca fui em academia come...
Com misógino não tem que entender o que se passa o...
Pelo jeito de escrever deduzo que seja uma mulher,...
Não sei o que dizer, Michele, mas agradeço sua obs...
Estou buscando compreender meu pai, e vejo a vida ...
Tenho acompanhado seu blog e acho você é um cara m...
Sabe de uma coisa, eu fiquei imaginando você e por...
Acho q casei com um misogino ? O problema q moro f...
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