Desde muito tempo venho debatendo em mim e, principalmente, por ter sentido na pele o efeito "Aquário" nas relações que tive. Quando você vive dentro de um aquário sua privacidade e sua intimidade estão vulneráveis. Você não tem a menor chance de se proteger dos olhares e dos julgamentos alheios, que, muitas vezes, são de pessoas que querem saber da sua vida simplesmente para enxergar o quão estagnado e frustrado você se encontra. É uma forma de conseguir viver vingativamente bem, mesmo que esse sentimento seja inconsciente na pessoa. Tal fato se vê valer nos programas de tevê em que pessoas se expõe o tempo todo. Uma coisa é o produto que vende audiência para uma emissora de televisão, outra coisa é a sua vida no meio que vive. Se expor na TV pode lhe render complicações maiores, é claro, mas pode esclarecer coisas ocultas, e até render dinheiro ou fama. Entretanto, na sua vida particular você não contará com terceiros para contar sua história minuciosamente, nem para abafar seus deslizes, tampouco para justificar suas justificativas. A pessoa que vive uma vida dentro de um aquário está fadada a ser pega de surpresa sempre. Ontem conheci uma pessoa muito interessante, de uma inteligência marcante e uma compreensão dicotômica de si mesma, a Karen, que durante um discreto diálogo em que a prendia durante um atendimento, temendo prejudicá-la em seu trabalho, sobre uma expressão do coaching de que deveríamos parar de falar se quiséssemos encontrar o equilíbrio em nós. Discordei, como ela, de tal afirmação, até porque todos sabemos que falando não implodimos em nossos pensamentos. Mas isso não tem a ver diretamente com o aquário que vivemos. É preciso saber para quem falamos, para quem abrimos o peito e mostramos como o coração pulsa. Bem verdade que se fizermos isso para quaisquer pessoas estaremos correndo sérios riscos de julgamentos ou mesmo de prepararmos o inimigo para nos golpear no ponto mais fraco de nossas defesas. Não são todas as pessoas que julgamos ser interessantes, que nos julgam interessantes também. Geralmente e justamente o par que escolhemos ter é a pessoa a quem não deveríamos nos abrir tanto, enquanto não víssemos sua intimidade visceral antes. Falamos sobre isso também, sobre o retorno das coisas, os feedbacks. E aqui no blog eu tenho me exposto sobremaneira, numa busca frenética de aceitação. Uma aceitação de mim comigo mesmo. Há poucos dias postei um texto, uma reflexão em que eu anunciava uma libertação depois de tanto tempo aprisionado numa angústia, por um episódio que travou minha vida. Depois de conversar com a Karen senti que me expunha demais no post e não via a hora de retirá-lo do ar. Quem leu, leu... quem não leu, certamente lerá, mas revisto, cuidadosamente reestruturado, porque é minha missão sair do aquário, também não quero entrar num caixote, tampouco numa ostra. Quero liberdade. Ontem, na paz de um diálogo contido, ainda que prazerozo senti, pela primeira vez, vontade de andar pelo condomínio do apartamento que evitei sequer olhá-lo de longe por longos oito anos. Foi lá em que minha tragédia de vida começou e senti vontade de regressar, enfrentar o fantasma que lá ficou. Isso eu posso dizer aqui, pois há uma diferença entre me expor e contar um pouco da minha experiência, a menos que fosse uma carta para uma pessoa em que eu conhecesse pessoalmente e/ou confiasse imensamente, o que não seria o caso, pois o meu blog é visto em todas as localidades do mundo, por mais de 300 mil pessoas e meus textos são para os fortes, já que não são curtos e às vezes são complexos para compreensão, muito embora sejam profundos, cultos. Depois que mergulhei no escuro vale do medo e da dúvida, da culpa e da impotência pós casamento em 2008 sucumbi por oito anos de reflexões e uma busca incansável por entendimento do que aconteceu. Foram oito anos perdidos em que poderia ter feito muitas coisas, até mesmo me reerguido social e economicamente. E nesse ínterim abandonei tudo o que possuia, direta ou indiretamente, e com isso me expus perigosamente. Na ocasião morava sozinho no meu apartamento e onde eu era incrivelmente feliz. Tinha tudo sob controle e podia viver uma vida maravilhosa se não tivesse me dado de bandeja para uma estranha. De fato, ela entrou na minha vida e enferrujou todo o meu futuro. Existem pessoas que são assim, enferrujam sua vida, sugam suas energias, como aquelas plantas trepadeiras que sugam a seiva da árvore hospedeira, depois a sufoca e mata. Esse tipo de mulher, por mais bela que seja, não é para qualquer tipo de homem para suportá-las. E naquele tempo eu não tinha cinco por cento dos noventa por cento da malícia que detenho hoje, então dá pra ter uma ideia do quanto me arrisquei. E nisso abandonei meu apartamento, transtornado pelo teatro mambembe no qual vi meu casamento se desmoronar, na imprudência de não ter me protegido das manipulações fui o alvo perfeito. Desde então nunca mais sequer olhei para o prédio, quiçá passei na frente do condomínio tamanho era o pavor que sentia das lembranças que amargavam no meu consciente. Mesmo passando todos os dias na rua paralela ao condomínio meu cérebro literalmente havia apagado o lugar, que por mais que eu olhasse para a direita do volante no carro não o via, sequer percebia. O cérebro é incrível com os traumas. Entretanto, ontem eu fui lá no condomínio. O porteiro me cumprimentou respeitosamente me chamando pelo nome: "-Boa tarde, sr. Rodrigo. Seja bem vindo!". Anunciei minha intenção de passear pelos espaços do condomínio e ele disse: "-Que bom que o senhor está de volta, fique à vontade". Deus opera a cura em momentos mais improváveis na vida da gente. Jamais, em momento algum, senti vontade ou sequer pensei em fazer isso, mas numa singela e cautelosa conversa com uma pessoa interessante me despertou a vontade de voltar a morar no meu apartamento e recomeçar. Deveras me deu dor de cabeça passear por lá, mas foi bom, foi a primeira aproximação mais importante em oito anos de ostracismo. Agora é cuidar para recomeçar, com calma, e principalmente fora do aquário.

Publicado por Rodrih às 13:43 | Link do post
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