Por: Cristina Luckner, da Revista SuperInteressante - Ed. 273/Dez-2009

Muita gente promete perder alguns quilos. Outros juram de pés juntos que vão parar de fumar. Alguns se obrigam a trabalhar mais... e a gastar menos. E uns garantem nunca mais fazer piadas estúpidas (ops, esses somos nós, da SUPER). É uma força de vontade que só, uma concentração de energias e pensamentos rumo ao objetivo. Até que a promessa vai para o saco. Pode chamar de síndrome da segunda-feira (o dia geralmente escolhido para o pontapé inicial dessas resoluções) ou síndrome do Ano-Novo, já que é comum o pessoal querer se renovar depois do Réveillon. E, a essa altura do ano, é bem possível que você já esteja elaborando a listinha de atributos do seu "eu" versão 2010. Pois saiba que você também está a um passo do fracasso.

Só 12% dessas promessas são cumpridas, segundo um estudo do pesquisador Richard Wiseman, professor de psicologia da Universidade de Hertfordshire, na Inglaterra. Wiseman tirou essa conclusão depois de acompanhar as metas que cerca de 3 mil pessoas, entre americanos e britânicos, estipularam para si mesmas em 2007, uma pesquisa que ele prometia publicar nos próximos meses (vamos ver se cumpre). Mas por quê, afinal, é tão difícil se comprometer consigo mesmo?

Dê uma olhada ao redor: as tentações aparecem por toda a parte. O supermercado está cheinho de comida. Distração no meio do expediente não falta: tem celular, YouTube, pausa para o cafezinho. Cigarro, álcool e drogas sustentam o vício de quem busca prazer. Hoje é tão fácil atender às nossas vontades que somos constantemente estimulados a satisfazer nossa personalidade imediatista - aquela que quer tudo no presente.

Quando criamos uma meta e decidimos controlar alguma vontade, é porque acionamos a outra personalidade, a planejadora. Pensamos no futuro - calculamos os resultados que nossos atos vão gerar. Se concluirmos que é melhor evitar as consequências ruins, começa uma guerra entre os nossos lados imediatista e planejador. E o primeiro costuma ganhar."É que o agora parece sempre mais concreto do que a recompensa que só virá no futuro", diz Michelle vanDellen, professora de psicologia da Universidade da Geórgia, nos EUA.

Na verdade, o homem sempre foi condicionado a pensar mais no presente. É uma herança dos ancestrais dos tempos da caverna. Pense bem: naquela época, o homem dependia de seus instintos para sobreviver. Se tinha fome, lá ia ele caçar. Se ficava com frio, saía à procura de proteção. E, se desse de cara com uma Miss Caverna, arrastava a mulher pelos cabelos para garantir sua reprodução. Eram tempos de escassez. Por isso, aquele homem vivia pensando no presente.

O que faltava naqueles tempos existe hoje de sobra. E parece que nós ainda não aprendemos a lidar direito com essa realidade tão generosa. "O homem de hoje é muito parecido com o das cavernas, no sentido de querer saciar imediatamente instintos como os de fome, preservação, prazer", diz Robson Nascimento da Cruz, psicólogo e pesquisador da UFMG.

Ou seja: há mesmo algo em você trabalhando intensamente pra que suas metas fracassem. Por isso, não fique deprê se bombar no teste que você mesmo se impôs. Dê um jeito de consertar a situação.

Você x você

Dado que o inimigo é você mesmo, trate de impor limites a esse mimado. Ensine-o a ser prudente com algumas técnicas: castigos amedrontadores, uma boa dose de objetividade, apoio moral e um grupo de amigos persistentes. Começando pelo mais divertido: os castigos.

Pra isso existe o www.stickk.com, criado por Ian Ayres e Dean Karlan, respectivamente professores de direito e economia da Universidade Yale. O site serve pra você se comprometer de verdade com suas metas - de papel passado e tudo. Na verdade, é um contrato virtual, no qual você declara sua meta e em que prazo pretende cumpri-la. Pode incluir um amigo como juiz, o que significa que ele fiscalizará seu comportamento e enviará relatórios ao site. E pode impor-se uma punição se fracassar, como dar dinheiro a uma causa que você não apoia. Tipo mandar uns dólares para o Bush.

Não é piada - a estudante de Yale Zara Kessler fez isso mesmo. Pra ficar mais responsável, ela listou 7 promessas no stickk.com, como "não fuçar a vida dos outros no Facebook" e "fazer a cama diariamente". Ela bem que tentou cumprir tudo, mas não deu. "Entrei no site e me declarei um fracasso", disse em um depoimento publicado no The New York Times. Resultado: doou US$ 50 para a Biblioteca Presidencial George W. Bush, no Texas, dedicada à preservação da memória do ex-presidente americano.

A pena não foi suficiente para manter Zara na linha. Mas a estudante é uma exceção no stickk.com, como mostram os números. Entre os usuários que prometem dinheiro para uma instituição que odeiam e são monitorados por amigos, 80% cumprem as promessas. Só 25% têm sucesso quando deixam de se impor uma punição e de escolher um juiz.

O medo funciona, já deu pra ver. Mas também há estímulos positivos eficientes. E aqui os caminhos se dividem para homens e mulheres. Foi o que mostrou a pesquisa que Richard Wiseman conduziu em 2007. Para homens, objetividade é tudo. Nada de pensar vagamente em parar de fumar. É preciso determinar alguns critérios aí: definir quantos cigarros por dia você vai fumar até parar. Ou focar-se nos benefícios que vai conseguir, como "Hum, com músculos como o do Cauã Reymond, vou ficar irresistível para a vendedora da banca de revistas". Homens que seguiram essas duas premissas tiveram uma taxa de sucesso nas metas 22% maior do que os outros no estudo de Wiseman. Já as mulheres precisam de um empurrão diferente. "Elas têm mais sucesso quando contam a amigos e à família sobre sua resolução, ou quando são apoiadas a não desistir, mesmo que deem escorregadas", diz o pesquisador. Aquelas que contaram com esse apoio moral aumentaram em 10% as chances de cumprir sua promessa, na comparação com aquelas que não tiveram esse apoio.

Se nada disso funcionar, parta para a última tática. Marque uns programas com seus amigos mais determinados - dá pra virar uma pessoa controlada quase por osmose. "O autocontrole é contagioso", diz vanDelle, da Universidade da Geórgia. Em um estudo realizado por ela, 36 americanos entre 18 e 25 anos fizeram um teste de coordenação motora. Encerrada a prova, metade do pessoal foi orientado a pensar em um amigo com bom controle das próprias ações. A outra metade foi instruída a pensar em alguém descontrolado. Todo mundo teve de refazer o teste. E aqueles que pensaram em um bom exemplo de força de vontade tentaram resolver os exercícios por mais tempo. Ou seja, resistiram mais.

Dose o controle

Só tem um porém: autocontrole gasta. Quanto mais usamos, menos sobra. Foi o que mostrou uma pesquisa feita pelo psicólogo Roy Baumeister, da Universidade da Flórida, em 2003. Ele pediu a 67 estudantes que ficassem sem comer por 3 horas. Depois colocou os famintos, um a um, em uma sala fechada, diante de dois pratos: um com cookies recém-saídos do forno e outro com rabanetes. (A sala cheirava a chocolate, de propósito.) Alguns dos estudantes foram instruídos a comer cookies, outros a comer rabanetes. Terminada a tarefa, todos tiveram de fazer um teste de lógica (que, como eles não sabiam, não tinha solução). Resultado: os coitados do grupo do rabanete, tentados pelos cookies, desistiram mais rápido de completar a prova do que os outros. "A tarefa de superar a tentação parece ter consumido a capacidade dos participantes, deixando-os com menos condições de insistir no teste", escreve Baumeister. Na prática, o grupo do rabanete gastou toda a força de vontade na 1ª tarefa. E ficou fraco demais para a 2ª.

O segredo dessa escassez de controle sobre si próprio está numa substância chamada histamina, liberada em situações como o estresse. Ela nos ajuda a ficar alertas e, portanto, controlados. Segundo a pesquisa de Baumeister, o nível dessa substância no corpo cai quando passamos por uma tentação (aconteceu com os participantes). Isso ajuda a explicar por que alguém que segue rigorosamente uma meta às vezes vacila em outra, como engordar depois de parar de fumar. Ou porque sentimos vontade de comprar uma loja inteira depois de controlar os gastos por um mês. É que esvaímos a cota de disciplina. Ou seja: não a use de uma só vez. Mantenha a linha dura consigo mesmo - mas não esqueça de liberar alguns agradinhos de vez em quando.

Reflexões do autor do blogdorodrigocaldeira:

Ao longo de minha adolescência e juventude (pós-adolescência) sentia uma necessidade latente de ser conduzido por alguém mais experiente em minha vida. Isso não aconteceu, principalmente dentro de casa, pelos meus pais. Certamente eles, naquela época, não faziam ideia da importância que tinham em definir e delinear meu futuro, me adestrando para que eu me aclimatizasse e pudesse ser alguém mais realizado do que me sinto atualmente. É desesperador você se sentir desamparado e sem alguém com mais malícia para orientá-lo. É desanimante, na verdade. Segui por toda minha vida à revelia de conduções tutoriais e isso me causou imensos abismos na autoestima. Somente uma vez, quando meu pai me levava para o colégio me disse, enquanto dirigia a Brasília 1975: "Eu quero ser seu amigo, você pode me falar as coisas". Eu não lembro o teor da conversa, sei que olhava para um Fiat 147 azul celeste e bocejava horrores - isso naquela época não tinha entendimento, hoje sei que tem a ver com a energia sensorial, no ramo da física quântica. Meu pai sempre foi ausente, até para assuntos de garoto e a única vez que ele tentou me mostrar algum exemplo de ser macho, quase fui estrangulado na cama de casal num enfrentamento corpo-a-corpo, em que isso me fez evitar qualquer tipo de contato físico com ele em brincadeiras desse tipo. Essa experiência quando criança me levou desamparado por toda a adolescência, juventude até nos dias de hoje em matéria de pai e filho. Talvez isso fizesse com que eu tivesse pavor de ter filhos, já que muitas características de nossos pais trazemos em nosso DNA mental. Depois de duas separações conjugais e muito tempo para refletir sobre o que aconteceu pude perceber que tudo se refletia na ausência de orientações de alguém mais experiente. Com base nisso passei a orientar pessoas, na maioria, mulheres, tendo por base a referência da vida solta que tive, com temor religioso e liberdade excessiva nas obrigações. Muitas mulheres buscavam naturalmente serem orientadas, quase controladas, aliás, quase não, literalmente controladas. Isso fazia bem à elas, sentiam-se seguras e confortáveis para executarem seus planos de vida, alcançavam sucesso pessoal, familiar, social e profissional. A começar da ex-esposa, que seguiu todos os ditames que coloquei, enfim.. o resultado não foi o mais esperado, mas tudo bem, daí já é uma questão de caráter de cada um e o bom julgador por si se julga. Desde 2010 tenho orientado cerca de 39 mulheres de todas as idades, isto é, dos 16 aos 60 anos. Auxiliei mulheres a resgatar casamentos, ou sair de relações com homens misóginos. Reinventei outras tantas, que pareciam zumbis sociais, sem esperança, sem foco, sem vida, sem sequer sensualidade, de uma autoestima tão baixa que as tornavam invisíveis - até para si mesmas diante o espelho. Desmontava-as e remontava-as com base numa metodologia pessoal, justamente aquela que eu nunca tive para mim. E os resultados eram (e são) impressionantes. O compromisso delas com elas mesmas acontecia, elas realmente tomavam as rédeas de volta de suas vidas e obtinham resultados compensadores, positivos, realizadores. Há quem tenha passado em concurso, conseguido casar-se e ter filho. Tenho validações de todas elas, agradecimentos, reconhecimentos, até orações. Sem que se tenha alguém mais vivido para ditar os primeiros passos e cobrá-los, dificilmente a pessoa conseguirá manter um compromisso pessoal. Obviamente, que há pessoas que conseguem fazer isso por si próprias, mas essas pessoas bem aventuradas tiveram uma boa relação pai-mãe-filho, foram conduzidas, conscientizadas do futuro, o que e como fazer, o que buscar. Inconscientemente fiz isso com as duas esposas e ambas usufruiram de resultados maravilhosos em suas vidas. Hoje eu percebo isso. Em relaçã à essa matéria, é isso mesmo, é quase impossível ter um compromisso consigo mesmo se não tiver muita determinação ou necessidade. Ou, acrescentando, ter pelo menos alguém que aponte a direção.

 

Publicado por Rodrih às 10:26 | Link do post
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