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http://blogdorodrigocaldeira.blogs.sapo.pt

Desde 2008 - 716.000 visualizações em todo o mundo. Diário pessoal aberto, onde se pode ler experiências pessoais de vida, de relacionamentos, vislumbrar reflexões psicológicas, sociais e até pessoais.

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A perda de uma mãe...

26.08.15, Rodrigo Caldeira

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Tenho mais de 40 anos de idade, sou um homem cabeça feita, às vezes um tanto imprudente, mas sou formador de opiniões, crítico e deveras intelectual. Tenho amigos e amigas mais novos e de idades próximas à minha, alguns que já perderam suas mães. E é sobre isso que venho refletir aqui, a perda de uma mãe. Certamente não tenho poupado minha mãe de meus arrancos e minhas atitudes ofensivas, muitas vezes ignorante, e bote ignorante nisso. Obviamente, me sinto extremamente mal após ter agido assim, é muito ruim a sensação, ainda mais quando percebo que estou com um pouco mais que 40 anos, o que me confirma que minha mãe terá pelo menos uns bons anos a mais do que eu, pelo menos 25 ou 30 anos. E isso me dói. Me dói lembrar de amigos e amigas que não tem suas mães para poder sequer conversar, pedir um conselho, dar um abraço ou mesmo fazer showzinho de birra. E quando penso nesses amigos e nas amigas órfãs de mãe (e até mesmo de pai) meu coração estremece, minhas pernas mal conseguem sustentar o meu corpo e meus olhos marejam. Minha mãe é tão ativa, mais do que eu tenho certeza. Psicóloga, filósofa, teóloga, professora, mãe, dona de casa e avó. Que mulher fantástica! Como se eu quisesse estar preparado para o dia de não tê-la mais comigo eu antevejo o dia em que eu estiver sozinho sem ela, meu corpo dói, minha cabeça queima, sinto um nó na garganta e meus olhos enchem d'água. A vida pede maturidade até para isso, uma clareza de espírito que não sei se vou dominar um dia, mas serei obrigado a ter essa capacidade sobre-humana. São pensamentos de medo. Pavor, aliás. E não dá para não pensar nisso, porque é como se você ficasse em pé na beirada de um prédio de trinta andares sem estar segurando em nada, e sua mente quase te empurra precipício abaixo, como um ímã do medo que de tanto medo te puxa. Hoje em dia eu tento aproveitar o máximo que posso e do que não posso, não que eu já esteja esperando a pior notícia, até porque, como eu já disse aqui, minha mãe é muito ativa, esperta, agitada e ninguém segura essa mulher. Mas o tempo é o tempo, não vou me fazer de desentendido e me iludir de que o tempo só serve no relógio. O tempo está em todos os lugares, e com ele vêm todas as atenções. Procuro não tocar no assunto de mães para amigos e amigas que não as têm, e nem fico tentando imaginar como é estar sem elas, muito embora seja quase inevitável pensar vez outra. O mundo se torna vazio ou pelo menos sem diversão, a graça de sentir graça também escapa entre os dedos. A saudade é insignificante quando o assunto transpassa o sentimento de falta. É inimaginável sentir tanta ausência. É loucura. E eu abuso e uso de minha mãe, não no sentido de exploração, pois até aprendi a passar minhas roupas (principalmente camisas sociais, que tinha pavor só em imaginar), mas ao ver minha mãe deixando o prato de almoço para passar uma camisa para mim, isso foi o fim e a raiva que senti por ser tão incompentente me tomou por completo. Tudo bem que queimei algumas camisas, também saí algumas vezes com uma parte passada e outra amarrotada, mas eu dominei o ferro de passar roupas e hoje eu passo minhas roupas com eficiência. E como cansa passar roupas! Então vejo que minha mãe já não precisa se anular para me servir, aliás, tirando minhas birras por pura falta de vergonha na cara mesmo, o resto eu tenho aproveitado deliciosos momentos com ela. Brincadeiras, provocações, muitas conversas e fofocas. Como nossas mães gostam de uma fofoquinha... me divirto. Tento transceder minha mente e meu espírito para uma compreensão profunda e harmônica para o ciclo da vida humana. Eu também, um dia, deixarei a vida terrena e se tudo o que tanto se acredita for real e verdadeiro, seguirei em consciência e espírito para algum lugar. Vejo que a vida é uma constante luz de superações e aprendizados, não se foge disso e nem se conserva. Não se domina, nem se armazena. A vida segue, continua e vai sem pensar em voltar. Não avisa quando nem onde, nem que forma ou momento, simplesmente parte, num descaso e desprezo pelo corpo e por todos os demais à sua volta, que nos faz sentir insignificantes e desprezíveis. Não há despedida, não há comentário, nem mesmo um sinal, simplesmente a vida segue, transpassa nossa compreensão e some. Tenho um primo que prezo e considero mais do que muitos demais, e ele perdeu a mãe, e há pouco tempo o pai. Ainda que tia e tio, minha compreensão da perda de mãe e pai está aquém do aquém, do aquém que ele e minhas primas sentiram. Mas é justo que este seja o ciclo, ainda que nos fira o coração, por isso eu sinto que é muito importante que cada dia eu possa aprender a viver intensamente os momentos com minha mãe super-sônica. Muitas vezes me pego chorando, deitado antes de dormir, num sentimento de perda profundo, doído e desamparado. É algo que não consigo controlar, pois é quando começo a dormir e vem um súbito pensamento de perda de mãe e pai. E a descarga elétrica que meu corpo produz desbaratinando meu cérebro, minhas vistas e meu corpo todo são a tradução do pavor dessa perda. Então peço para Deus abençoá-los, minha mãe e meu pai, e quase como um mantra do sono consigo relaxar e dormir. Tem momentos que minha mãe passa dos limites e minha paciência se converte numa irritação sem noção, mas depois que passa um tempo eu me sinto um ignorante, então vou e passo perto dela pra sentir a energia. Se tiver boa ou razoavelmente aceitável puxo assunto e troco ideia (com a cara de pau mais lavada do planeta), e tudo volta à estabilidade emocional necessária. E assim vou aprendendo a viver a maravilhosa experiência de ter a minha mãe, ainda que a divida com muitos e ela até os paparique mais do que a mim, mesmo assim é um prazer dividi-la com outros, pois cada vez mais sei da importância desse papel divino que é ter mãe, tanto como ter pai, também. Se eu pudesse aconselhar alguém que tem mãe e/ou pai, que deixasse de ser nocivo e passasse a ser bom filho e boa filha, porque é impagável tê-los entre nós. 

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