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http://blogdorodrigocaldeira.blogs.sapo.pt

Se trata de um diário pessoal aberto, onde as pessoas podem ler experiências pessoais de vida, de relacionamentos, reflexões psicológicas, sociais ou pessoais.

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Como treinar um misógino em 365 dias.

15.08.21, Rodrih

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Tenho uma amiga com quem converso constantemente, chamada Gisele R., a quem venho acompanhando sua tragetória num relacionamento tranquilo, que começou em meados de 2019 e entrou num colapso absurdo em meados deste ano. O cara que se relacionou com Gisele era tranquilo, cuidadoso, zeloso, um típico parceiro que Gi poderia se orgulhar e chamar de seu. As fotos no Facebook eram tantas, que Gisele dizia em todas as postagens o quanto era sortuda de ter encontrado seu "príncipe anfíbio", numa analogia de que ele seria um sapo e ela uma princesa. E os dois se divertiam com isso, dava para ver nas fotos a presença de sapinhos de todo tipo, como chaveiros, peso para porta, peso de papel, "pinguim" de geladeira etc. Gisele conversava comigo coisas que não conversava com mais ninguém, eu fui pego como amigo confidente e conselheiro também. Não que eu quisesse, mas, sabe... de uma década pra cá nem me incomodo mais com essa coisa de ser mentor, aconselhador e lálálá dessa mulherada. Às vezes (ou todas as vezes) dou conselhos e orientações que eu mesmo não faço ou nem sou perseverante, e por fazer assim (e me dar mal) busco alertar para que não faça a mesma coisa e, consequentemente, se dar mal também, óbvio. E assim seguiu-se a amizade com Gisele, uma bela garota de 1,74m, de olhos verdes (eu acho), falsa magra e de péssimo gosto musical, mas ninguém é perfeito né. Aos 28 anos, Gisele conheceu um cara boa pinta, concursado num órgão público estadual de baixa patente, salário baixo, mas um cara incrível, como ela o descrevia. Passaram o ano de 2019 inteiro se curtindo, algumas D.Rs para equalizar a relação, até que ela o convida para morar junto. Obviamente era o mais certo a se fazer, já que o apetite sexual dos dois era um problema que precisava ser corrigido, ambos com bastante apetite, e assim se juntaram, ele se desfez de alguns eletros dela, porque os dele eram melhores, até que se ajustaram no frigir dos ovos. Durante os lockdowns de 2020, Gisele encontrou em seu boymagia um cara atencioso, asseado, prestativo e um chef-gourmet pessoal. Ele dizia à ela que não se preocupasse, quando estava passando pano no chão do pequeno apartamento em Águas Claras, DF, ou lavando a cozinha. Não bastasse isso, era o cara que sempre ia para o fogão criar refeições diferentes, além de, vez outra, pentear as madeixas da namorada, que mediam quase 80 cm de comprimento. Gisele realmente estava entregue e feliz com esse boy, a quem ela chamou de seu. Ela não se preocupava mais em que ela ia comer, porque sempre teve coisas feitas pelo boymagia, que não bastasse fazer as coisas na cozinha, também separava as peças de roupas por tonalidades e punha para lavar. Também assistia filmes com Gi, e se divertiam em saídas curtas, já que gostavam muito de ficar em casa. O boymagia passou então a gerir a casa e Gisele se sentiu a princesa do castelo feliz. O que a Gi não se deu conta é que ela havia sido acostumada a ser inútil, incapaz de fazer algo que pudesse validar sua independência do boymagia. Ele ainda ia para a academia malhar. O que mais uma garota alta, magra e bonita poderia querer de um namorado assim? Perto do mês de julho, Gisele me disse que estava infeliz, que a culpa era dela, que ela não merecia o boymagia, e que ele estava um tanto indiferente com ela, apesar de tratá-la bem, transar quando achava que dava, tinha costumes saudáveis e continuava sendo um bom chef gourmet, sempre atento em deixar refeição e lanche na geladeira para quando ela quisesse, já que ela estava trabalhando no modo home-office há um ano. Gisele passou a perceber que os assuntos dela não mais o interessavam como antes, nem os projetos, tampouco a comida que ela ia fazer na cozinha. Ele passou a ser o tudo dele, e dela também, sem dar, exatamente, os créditos à ela por isso... os créditos eram dele. Quem os via parecia entender que Gisele é quem foi morar com o boymagia, que ela é quem precisava do suporte dele e que ele era um bom homem por permitir que ela tivesse alguém para lhe dar atenção, cuidados (principalmente alimentares) e companhia. Durante esse período, Gisele realmente se tornou uma incapaz de fazer qualquer coisa, um lanche feito com pão e ovo frito, que fosse. Dependente de tudo dele, passou a ficar mais calada e aquela garota falante se tornou apenas uma pessoa que respondia, quando o boymagia se pronunciava. Ela fazia isso porque tinha medo dele ir embora, já que era a ameaça silenciosa que soava nos manifestos de insatisfação dele. Mas o cara não ia embora nunca, era só para massagear seu ego ao vê-la subserviente a ele, incapaz de dizer suas opiniões, valores e ideias. Íamos às manifestações-piquenique agitar nossas bandeiras brasileiras, e pouco a pouco passou a nem tocar mais nos assuntos sobre as boas coisas do novo Brasil. Aliás, passou a se abster e também a ter opiniões estranhamente contrárias às que tinha alguns meses atrás. O cara passou a inibi-la de tal maneira que bloqueou seus amigos no Whatsapp, inclusive a mim. Fiquei sem contato com ela pelo W.app por alguns meses, até que ela comprou outro chip e me chamou para conversar. Me contou que estava com medo e muito infeliz, que gostava do boymagia, mas ele era um cara ciumento e controlador. Disse que ele era amado por sua família e ela era um peso pra ele. E que não tinha forças para dar um basta nisso, porque saiu do emprego a pedido dele para estudar pra concurso, já que ela trabalhava para o governo, em cargo de confiança (ou coisa do tipo). Falei à ela que ao longo desses meses treinou um misógino para a vida dela. "- Você criou um predador dentro de sua casa, que ao perceber sua preguiça mental e física, sempre esperando dele as ações e manifestações, foi se tornando invisível e desnecessária sob seu próprio teto. Seu excesso de elogios no Facebook, e nas histórias que contava a todas às pessoas sobre as coisas engraçadas que ele fazia, mesmo que fosse te depreciando, e isso inclui também à sua família, o exaltou e a apagou ainda mais. Então, na verdade, você construiu um misógino, Gi". Mas todo cara doentio, cedo ou tade, se manifestará em seu devaneio. Sim, geralmente é, mas há também como se criar um inimigo para chamar de seu. Isso acontece porque as pessoas são vulneráveis e o poder é algo que cega o ser humano. Dependendo do histórico que a pessoa tiver no passado, poderá gostar da ideia, ainda que nunca tivesse motivos ou traços do passado, alguma herança mental familiar, que justificasse ser esse novo personagem. Num outro momento, eu, que nem sou dado ao fetiche de humilhar ou maltratar alguma mulher, pelo contrário, sinto necessidade de fazê-la ser melhor no melhor que ela puder ser, já me peguei influenciado numa experiência de um fetiche de uma garota há alguns anos. Ela queria ser mandada severamente, sem espaço para bondade. Comprei a ideia desconfortavelmente, e em menos de seis meses eu já nem mais me reconhecia. Um lado em mim dizia: "Pare Rodrigão, você está passando dos limites" e outro lado dizia: "Olha cara, ela nem reagiu ao que você disse, simplesmente sentiu mais tesão em você, então continue brother!". O que me fez parar com essa relação psicopática foram as várias conversas com ideias, aconselhamentos e orientações a outras pessoas, geralmente mulheres, com quem eu mantinha a postura de tentar conduzi-las para ter uma vida mais leve, mais alegre. Foram esses diálogos que me faziam sentir hipócrita, mesmo que antes eu tenha dito que ainda que não tivesse tais atitudes, mas aconselháva para que tivessem e tal, fazer isso nesse período de experiência psicótica na relação tóxica com aquela garota, me incomodava profundamente e me fazia sentir um hipócrita de marca maior. Eu não sou um cara tóxico, um agressor de mulheres, um torturador de mentes, um cara fútil nem egoísta. Sou humanista, altruísta, formador de opiniões e também conservador politicamente, zeloso pelos valores da família, pai, mãe, avós, meritocata etc. Mas se eu continuasse nesse treinamento, com toda certeza ia ser engolido por um conceito nocivo e me tornar um misógino, por quê não?! Com essa experiência percebi que as mulheres são tão responsáveis pelo misógino que detonam suas vidas, quanto imaginam. Aconselhei Gisele naquilo que pude e sei que ela não fará nada do que recomendei, justamente porque ela está se sentindo incapacitada e impotente. Será questão de tempo para ela reagir, devo sondá-la aos poucos e com paciência nesse novo número "secreto" dela, e ainda daqui a algumas semanas plantar ideias de fortalecimento pessoal, resgatando seus valores morais para que se sinta absorta de uma nova energia e possa se reerguer e enfrentar seus medos nele, pondo-o para correr como todo rato faz ao ver uma gata segura de sua força e poder. Mas não vou ficar pajeando Gisele o tempo todo, isto é, vou até um certo limite de condecendência e se, depois de todo esse acompanhamento, ela se sentir presa nesse indivíduo me restará tocar minha vida, afinal, quem tem pena do coitado fica no lugar dele. Vida que segue.

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