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http://blogdorodrigocaldeira.blogs.sapo.pt

Desde 2008 - 716.000 visualizações em todo o mundo. Diário pessoal aberto, onde se pode ler experiências pessoais de vida, de relacionamentos, vislumbrar reflexões psicológicas, sociais e até pessoais.

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Pai abusivo, sobreviva a ele se puder.

30.05.22, Rodrigo Caldeira

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Depois de assistir ao vídeo falando sobre o pai abusivo de Elon Musk, me identifiquei imensamente com sua dor e dissabor, com abissais diferenças de reações contra isso e em prol de si. Elon teve liberdade de lutar contra os abusos do pai, sem a interferência passiva da mãe. Pai abusivo-emocional é um problema que afeta muitas famílias, mas a postura de abusador vem de um passado de abusos e cabe às gerações seguintes quebrar essa herança, para que os entes futuros, se tiver, possam viver uma vida plena e definitivamente feliz nesta terra. Minha vida sempre foi perseguida por meu pai, não importasse o quão bom eu fosse, o quanto desenvolvesse minha capacidade, minha inteligência, meu caráter, minha honradez, tudo era insuficiente para ser reconhecido. Toda criança, principalmente garoto, necessita do reconhecimento do pai, do homem, do macho-alfa da família, do varão, mas quando ele tem a repulsa de seu pai em pequenas atitudes ou mesmo em ações escancaradas, o filho costuma buscar recursos de sobrevivência no mundo, como álcool, drogas, entorpecentes ou prostituição. Ao buscar o álcool e os entorpecentes, sua busca é a de sair dessa realidade por alguns instantes e se libertar sem o autojulgamento. É uma fuga prejudicial, porque ao voltar à realidade sua vida pode se deparar com situações ainda piores do que antes de sair de sua realidade. Isso se daria numa situação em que poria sua vida em risco ou a vida de outra pessoa, por exemplo, ou prejuízo material etc. Então sua necessidade de voltar para o universo inconsciente aumenta, daí temos o vício consumado, não exatamente pela necessidade de absorver o produto químico, mas pelo entendimento que a única porta para entrar nesse mundo de ausência seria consumir tais substâncias. A busca pela prostituição já é diferente da busca pelas drogas ou entorpecentes (tóxicos), e se torna mais nociva, tanto para o filho que busca esse subtefúrgio, quanto para quem estiver no seu caminho. A prostituição é uma maneira de se vingar dos abusos, numa confusão mais profunda de ódio e ressentimento do pai abusador, em que o filho tem o interesse objetivo de alcançar a breve realidade inconsciente depois de se sentir também abusador de alguém, como se quisesse mostrar para o pai imaginário que ele também sabe abusar e a pessoa abusada consente ao abuso, por também buscar uma compensação do abuso que sobre por alguém em sua vida pessoal. A coisa é tão confusa e tão perigosa, que às vezes os abusados se identificam tanto, que até se relacionam na dependência do abuso de um para o outro, validando o legado anterior de abusos. O filho abusado pelo pai pode também buscar na prostituição alguém que aumente o impacto abusivo contra si, num alcance de prazer odioso e depressivo, tendo na mente um duelo contra seu pai de que ele não sabe abusa-lo o bastante, como seu abusador sexual consegue fazer, então aí se entra nas práticas de BDSM, e todo o futuro de uma vida amável e equilibrada se contorce num emaranhado de frustrações compensatórias de autoaceitação. Os limites se extrapolam e o filho abusado perde a noção dessa fronteira, aliás, para ele não há mais fronteiras e seu cérebro perde o bom senso da realidade e da sensatez. Pai abusador, geralmente deixa por herança o poder do abuso ao filho abusado emocionalmente, tornando-o abusador de seu filho ou filha, ou enteada, ou esposa etc. Mas há uma coisa que precisa ser pontuada, e isso tem a ver com o livre arbítrio. Particularmente, sou cético quanto ao real livre arbítrio que todos temos. Para mim, não existe exatamente um livre arbítrio, mas uma adaptação dentro do possível daquilo que conseguimos fazer. O livre arbítrio funcionará melhor em famílias de níveis evolutivos mais elevados, como disse no começo desse post, em que disse da necessidade do filho quebrar essa herança gradativamente, para que as gerações futuras possam ter vidas mais leves, melhores e felizes. Essas famílias, cuja evolução já esteja acontecendo, o livre arbítrio tem sua função realmente ativa, porque os filhos desses pais evoluídos não sofrem abusos, aprendem a viver as melhores escolhas segundo o que aprenderam com seus pais, ou, se tiverem contratempo de autoestima, por causa de interferências externas conseguem apoio na família para se tornarem resilientes e mais fortes. Mas temos o caso do Elon Musk, que mesmo com um pai extremamente abusador teve sucesso na vida. Porém, ter sucesso não significa que você esteja cem por cento feliz, que sua alma seja totalmente plena. Sucesso não tem muito a ver com isso, apesar de depender de fatores como apoio familiar para que a evolução pessoal aconteça. No caso de Elon Musk, ele teve a referência na luta pela resiliência com sua mãe. Quando o pai é abusador emocional de seus filhos, geralmente as mães vem de abusos em suas vidas também e aceitam passivamente o que acontece aos filhos, principalmente filho homem. E, sendo passivas, pregam a passividade aos filhos, que o castra emocionalmente, tornando-o aprisionado pelo medo de se posicionar diante do pai, e por conseguinte, diante da vida. Minha experiência de ter um pai abusador emocional, também é a experiência de minhas irmãs, mas cada um de nós teve uma reação diferente. Somo três filhos, então os impactos foram rateados de maneira particular, sendo um maior para a irmã mais velha, na super bajulação desta, tirando da mãe a importância na família, fazendo-a entender que ela seria a mãe e a mãe seria a filha, definindo um padrão comportamento autodestrutivo que viria com os anos seguintes. Toda filha que olha para a sua mãe de cima para baixo, se condena à uma vida infeliz e confusa, porque não se encaixa na condição de filha, e não aceita a condição da mãe. Com o passar dos anos, de décadas, essa filha vai percebendo que algo está errado, sempre esteve, mas seu subconsciente dificilmente conseguirá equilibrar a relação já destroçada há tempos e sua vida passa a ser extremamente difícil e depressiva. Isto feito, sua reação piora quando essa filha percebe os abusos do pai, o que esses abusos fizeram com ela e, se antes ela nunca conseguiu experimentar nem reconhecer o amor da mãe, agora passa a odiar o pai por ter feito dela sua semelhança como abusadora emocional de seus entes (mãe, irmãos etc). A mim, os abusos emocionais se intensificaram com o condicionamento passivo da mãe na época, que, a fim de me proteger de algum futuro infeliz, me condicionou aceitar a tudo calado, sem posicionamentos nem reações, muito embora, algumas vezes tenha reagido. Já minha mãe vem de uma infância de abusos e passividade também, paterno e materno, que fez com que ela fosse "adestrada" para uma realidade da qual ela estaria à frente do seu tempo, em que ao invés de estudar quando criança, já assumia responsabilidades de cuidar da casa, de fazer comida aos irmãos mais novos (com fogão à lenha), de buscar vacas no pasto para encher cilindros com leite, fazer o café etc. Estamos falando de idades de cinco a catorze anos, quando uma criança deveria poder dormir até o sol raiar, e não acordar às 3h para buscar os animais no escuro da fazenda. Os abusos emocionais foram acontecendo até minha mãe encontrar um abusador emocional para chamar de seu, no caso, meu pai. Então, percebe-se como o legado de abusos emocionais vem desde lá trás, até chegar aos filhos, e se estes não perceberem a relação nociva e não se posicionarem contra isso desde cedo, herdarão o legado e passarão adiante, se tornando pessoas abusadoras e nocivas. Com isso, a vida em família irá demorar muito mais para evoluir e se tornar plena e feliz. Por minha vez, desde adolescente me revoltei com os abusos emocionais do meu pai, e comecei a atacar em mim os vícios dele, como repudiando o fumo e o consumo alcoólico. Em seguida repudiando o abuso à mulher e aos desprovidos de força ou representatividade, sem levar isso ao extremo, sem enfrentamentos colisivos, sem desrespeitar meus pais, principalmente meu pai, mas matando em mim o registro mental, seja qual fosse, me tornando a qualquer custo o oposto do que ele me representava ser. Por um lado isso me salvou de ser um alcoólatra, drogado ou promíscuo, mas por outro tirou de mim a referência de transformador, de resistência e valentia. Foram anos, décadas buscando despertar essas qualidades, que muitas vezes não conseguia mantê-las, porque meu subconsciente não tinha a referência, o know how para alcançar os melhores resultados. Como os abusos sempre aconteceram de meu pai comigo, tanto na infância, na adolescência e também na vida adulta, eu não tinha apenas que não buscar refúgio no álcool, nas drogas, no tóxico e na prostituição, e tampouco focar na resiliência, resistência e valentia, mas tinha que absorver os abusos emocionais diariamente, constantemente, como um inferno sem fim, sem descanso. Meus pensamentos, desde criança, era de quebrar a herança para que meus filhos pudessem ter uma vida mais plena e feliz, e por ironia do destino não tenho filhos. É como se eu morresse na praia depois de nadar na tormenta do mar revolto, mas acontece que não morri, ainda não. A exemplo disso, temos o vocalista da banda KISS, Gene Simmons, que mesmo sendo o criador da banda de rock mais agressiva, nociva, escandalosa e até indecente, não consumia álcool, não se drogava nem fumava, justamente para quebrar heranças e garantir a paz à sua mãe foi confinada aos 14 anos nos campos de concentração da Alemanha nazista. É pensando nas pessoas que você ama ou possa vir a amar é que você deve fazer a escolha de quebrar o legado abusivo anterior. A dificuldade de encontrar alguém aumenta a cada vez que meu aniversário chega, vou ficando mais velho e mais ressabiado, principalmente quando percebo que a outra parte vem de uma criação abusiva e está num processo de altos e baixos, igual ao que tive décadas atrás. É como ter que voltar no tempo para encarar tudo de novo, e outra vez, sabendo que minha reserva de energia já não é tão farta quanto antes. Principalmente quando encontro possíveis novas relações em que a mulher vive de abuso em abuso de homens abusadores, seja ela se dando como prêmio ou produto de leilão, no sentido de quem pagar mais leva e usa. Não tem como viver em plenitude com mulheres que convivem bem com o abuso, porque um dia elas irão explodir e destruir toda a paz, a alegria à sua volta, nem com aquelas que reagem com enfrentamentos agressivos, porque já percebaram que foram abusadas, também foram coniventes e estão reativas a qualquer atitude que julgarem (sem referência) que estão sendo abusadas. Encontrar uma mulher que mesmo tendo vivido algum abuso emocional, tenha a consciência de quebrar essa herança e prover um novo futuro está cada vez mais difícil. Com a pandemia isso se intensificou, e tornou a busca uma saga, quase uma fábula. Quem encontra alguém na plenitude, certamente também vem de uma família evoluída e plena, e quando uma das partes vem de uma família com abusador(es), a outra se corrompe e todo o legado de plenitude daquela família se perde. Hoje tenho um pai com 86 anos, e por escolha consciente prefere continuar sendo abusador emocional de todos nós, então, com essa consciência mais do que formada, tenho em mente que isso já está petrificado e ele jamais saberá o que é ser feliz, pois só é feliz quem sabe levar felicidade aos seus. Por fim, se você tem experiência de pai ou mãe que abusam emocionalmente de você e os seus, faça sua escolha e prefira quebrar essa herança evitando vícios e reações nocivas, pense sempre no porvir, em como você quer envelhecer, isto é, cercado de seus familiares que te amam ou esquecido por eles. Você escolhe como quer deixar essa vida. Eu escolhi que não quero deixar essa vida esquecido por não ter sido melhor nem ter propiciado o bem às pessoas.